“Pastilha, jujuba, chiclete e cocada”

          “Pastilha, jujuba, chiclete e cocada”; “Pastilha, jujuba, chiclete e cocada”, recitava repetidamente uma mulher do povo, em frente ao Banco do Brasil, à entrada de cada cliente, na manhã chuvosa… “Pastilha, jujuba, chiclete e cocada”, perfeito eneassílabo, isto é, um verso de 11 sílabas, na sua anônima, nominal, melódica e substantiva ressonância vocal. É claro: a mulher nem sabia que nos ofertava um verso, em seu apelo à secreta nutriência das guloseimas cotidianas, dadas às sensações gustativas e aromáticas.

            As diferenças e semelhanças entre os fonemas  “P”, “T”, “B” e “D”, jungidas às brisas de vogais, como “A”, “E”, “I” e “U”, em suas cores de tonalidades diversas, criam um ritmo que ecoa, nos ouvidos dos que têm ouvidos para a música das palavras, a sonoridade harmônica e ancestral que habita a própria origem da linguagem.

            Toda palavra articulada tem música, e o povo, com sua sabedoria congênita e oculta, sabe isso, assim como as crianças e os poetas. A linguagem articulada, característica do bicho humana, parece organizar o caos informe e inapreensível do silêncio primordial. E a fala do povo, a fala errada e certa e gostosa do povo, resgata esta verdade virginal. Basta saber ouvir, no tecido espesso dos vocábulos, os silêncios e tons que nos devolvem o sabor inesperado da vida.

            Penso, por exemplo, na voz e nos ditos dos camelôs, dos feirantes, dos vendedores de rua, dos consertadores autônomos, dos jornaleiros gritando as notícias, como um estranho e atraente acervo de poções mágicas de intuições e de saberes incapturáveis que se cristalizam, na vívida corrente dos ecos, solecismos e barbarismos populares, como pedras de toque de uma poesia que pertence a todos.

            “Pastilha, jujuba, chiclete e cocada”, embora com uma sílaba a mais, e com todas as diferenças e distâncias possíveis, lembrou-me o cadenciado decassílabo de Augusto dos Anjos: “O chocalho fatídico dos ossos”. Talvez, pelo percussão do timbre; talvez, pelo andamento melódico meio agalopado. Não importa. O que importa é que falar, cantar, recitar, ditar, ofertar, suplicar e responder são atos de linguagem. E em sendo atos de linguagem é como que operar um instrumento musical, fazendo, das experiências mais triviais do dia a dia, uma perfeita partitura poética a ser ouvida e declamada. Portanto; “Pastilha, jujuba, chiclete e cocada”.

HBF

Aquela banda não passou!

Eram cinco horas da manhã. O frio varava o corpo pesado de sono num quartinho de hotel na serra de Cuité. Era a “alvorada” que descia das nuvens espessas e úmidas molhando os remígios de uma pobre alma solitária. A esta “alvorada” juntava-se outra, quase como “sons subterrâneos do orbe oriundos”, como diria Augusto, embora não fosse o “choro da energia abandonada”, despertando de vez meus sentidos ressacados por uma noite longa de ilusão e boemia.

A melodia do dobrado, na sua cadência militar, lírica e saudosa, adquiria consistência acústica e harmônica, à proporção que, ainda meio sonâmbulo e etilizado, eu ia de encontro ao chamado inenarrável da banda municipal, exibindo-se no adro da igreja em plena manhã, num ritual de beleza rítmica que paralisava o fluxo do tempo e encantava o tecido vago das horas e dos minutos mágicos de uma sólida epifania.

 Poucas coisas me comovem tanto como os dobrados da infância, uma banda de música, uma praça, um coreto, uma retreta, enfim, todo um repositório de valor simbólico que se transmuta em finos e preciosos cristais da memória afetiva e duram para sempre na correnteza perene da saudade. A banda de música de minha infância vale como um poema, e se se transformou em retrato na parede; apenas dói, e como dói!

Ouvi “Alvorada”, e ouvi muitos outros dobrados, no privilégio de quase único espectador daquela poesia coletiva e isométrica, na ordem particular dos ritos e roteiros que só as bandas do interior sabem ofertar. Claro: lembrei de minha infância; lembrei de minha Comarca cercada de pedras, da pracinha, da igreja e da banda… Sobretudo da banda regida pelo mestre Antônio de Félix, e cujos músicos semeavam, com seus instrumentos de sopro e percussão, os campos abertos da alheia sensibilidade.

Seja nos ensaios, seja nas apresentações formais, em dias de festa ou de solenidade, ver e ouvir a banda era um dos prazeres mais cobiçados. A música, em sua simetria surpreendente, como que me transmitia, pelo menos a mim, a noção difusa de que existia alguma coisa para além do dado factual que me envolvia numa cidadezinha desolada e perdida do cariri paraibano.

Seu Zuza, com sua tuba, Lourinho, com seu trombone de vara, Zé Moisés, com seu sax, Louro, com seu trompete, entre outros, transfiguravam sua simplicidade cotidiana através de uma linguagem que me dava, como uma instantânea alquimia, notícias de verdades distantes e de valores e símbolos que ampliavam meu olhar de menino sobre os vastos descampados da realidade. Qualquer coisa de pedagógico era afinada pelos metais cintilantes de seus instrumentos musicais.

Era uma espécie de estranha convicção me tocando a carne da sensibilidade: aquele mundo não era aquele mundo; aquela vida não era aquela vida; aquela banda me ligava a outras paisagens; me dizia de meu vínculo telúrico e me jogava na beira do mundo, convocado por outros abismos que só a imaginação pode ultrapassar. Aquela banda me ensinou os primeiros compassos da poesia. Aquela banda, sim, não passou!

HBF

Colecionar é preciso!

O que você coleciona? Moedas, selos, santos, carros, cartões, gravatas, relógios, ilusões, amores, decepções? Eu, por exemplo, coleciono pedras, pentes, pássaros, perfumes, personagens, poemas, chapéus, chaveiros, chocalhos, chuva…

Decerto, colecionar é uma estranha necessidade metafísica de imprimir uma ordem aos materiais do mundo. Uma ordem, mesmo que externa e aparente. Mesmo que insustentável como qualquer ordem que se preze e que se saiba, como qualquer ordem lógica, razoável e estruturada, autodissolúvel.

Para mim, pelo menos, colecionar é essencial, porque sempre fui internamente um desordenado perfeito. Em mim pulsa um caos interior, e, nesse caos interior, as coisas da vida se misturam, sem hierarquia e sem prioridade. Em suas absurdas fronteiras os objetos se entredevoram numa fábula febril de agonia e alucinações, e nem as estrelas cintilantes que brilham no firmamento pacificam os tremores da alma.

Colecionar é uma forma de editar o mundo e de amar as coisas. É também um jeito lúdico, menino e quase poético de colorir humanamente os objetos e os inutencílios que nos cercam, com sua anônima humildade e seu imperecível silêncio. Quase diria: sua genuína descartabilidade.

 Não sei, mas, às vezes, chego a pensar que nada é descartável, que coisa nenhuma é descartável, até mesmo aquela miudinha, incolor e esquecida num fundo de gaveta. De certas pessoas, no entanto, já não penso assim. Sobretudo daquelas que abdicam de serem pessoas e se contentam com a simples contingência de ser o animalzinho que é. Vazio, visguento, vermífugo, viperino…

As coisas, não. As coisas merecem todo o respeito porque todas as coisas são sagradas. As coisas não falam e falam a linguagem muda do encantamento, refletindo os secretos sortilégios de sua presença viva e enigmática. Móveis ou fixas, as coisas possuem autonomia, liberdade e beleza. Dizia um antigo e barbudo filósofo que existe um Deus dentro de todas as coisas, e um poeta moderno, por sua vez, sustenta que todas as coisas têm língua. Portanto, vamos colecionar deuses e orar pelas coisas. Colecionar é preciso!

HBF

Tocar sino!

Tocar sino não é mesmo uma profissão. Uma profissão como médico, engenheiro, advogado, carpinteiro, professor e tantas outras mais, com seu devido registro em instituição ou órgão regulador, vinculados ao Ministério do Trabalho. Tocar sino é missão do corpo, da alma, do coração e da sensibilidade, não importa a ausência de dispositivos instrumentais que a normatize junto ao mercado econômico e a suas exigências utilitárias.

Fiquei pensando nisto depois que li o artigo dominical de meu confrade Evaldo Gonçalves, recordando a sua infância na cidade de Sumé, especialmente de quando, meninote, na qualidade de acólito dos serviços missionários, fazia repicar o sino da igreja, convidando os fiéis para os rituais sagrados da Casa de Deus.

Ora, tocar sino é como fazer poemas, criar passarinhos, comer doce de alfenim, montar em cavalo baixeiro, espiar as serras cachimbando, dormir no inverno sob os acordes miúdos da goteira, acariciar o dorso avermelhado dos crepúsculos e o algodão de seda das manhãs neblinadas do Cariri. Ou, em outros termos, tocar sino é missão, é bálsamo, é oração, pequeno êxtase, prazerosa respiração…

Há coisas e práticas que não se pagam. Passam ao largo dos carimbos quantitativos e se tecem, livres e puras, enigmáticas e clarividentes, cotidianas e miraculosas, na clareira luminosa da gratuidade, preservando a perfeição de tudo aquilo que é inútil.

Pois bem: tocar sino é uma delas. Assim como uma delas é brincar com as palavras, colecionar ninharias, namorar as borboletas, carpir o perfume das rosas, construir arranjos florais no pelo das nuvens e reter, na memória afetiva, os sabores e as imagens que amamos .

Só que tocar sino é tão simétrico, é tão íntegro, é tão cheio de claridade, que culmina com os artefatos da beleza. Seja para anunciar a missa das primeiras manhãs ou antecipar, nas tardes mornas, a doce e dorida melodia da Ave Maria, percutindo, no oco do mundo, os soluços distendidos dos que já se foram.

Tocar sino é um exercício musical de uma sagração solitária e divina, principalmente se os sons ecoam pelos sossegados logradouros e praças públicas das pequeninas cidades do interior, naquele abandono típico de fim de fim de mundo. Uma cidade, por exemplo, como a Sumé, de Evaldo Gonçalves, com a eterna verdade,

vazia e perfeita, do seu céu de tantos azuis límpidos e surpreendentes; ou Cabaceiras, de meu confrade Juarez Farias, com seus lajedos desolados fitando a curva acesa do infinito; ou a Água Branca, do poeta Luiz Nunes, com suas vazantes almofadadas e o mistério incontido de suas águas claras e distantes; ou Umbuzeiro, com seus baixios úmidos que apontam para a correnteza magra das águas do Paraíba, ou, ainda, Aroeiras, minha comarca das pedras, onde tantas coisas pereceram e donde brota os cardeiros ásperos e agudos de tanta saudade.

HBF

O desequilíbrio do ser

“Boa Sorte” é sua razão social. Já no nominativo casam-se certo halo místico e o tom publicitário dos apelos mercadológicos, certos sinais de fatalismo esotérico e a solaridade implacável da verdade comercial. Mas, melhor que a rubrica principal ostentada, em letras coloridas, em sua fachada, é o cognome, de uso doméstico, que o seu proprietário escolheu: “O desequilíbrio do Ser”, reportando-nos à sua atávica veia poética, fertilizada nas águas do Taperoá, nutrida na gleba parda do clã dos Farias, e, ao mesmo tempo, sinalizando para a singularidade de seus frequentadores habituais.

Falo, caro leitor, da Banca de Revista de meu bairro, os Bancários. Banca de Revista, Bomboniére, meio lanchonete, meio bar, principalmente, meio bar. Antes de seu progresso financeiro e de seu crescimento na área de serviços e produtos, era uma simpática barraca onde bebíamos cerveja, uísque, conhaque e outros líquidos essenciais, já tocados pelo calor gratuito da comunhão humana. Num de seus aniversários, meio arrebatado pelo malte translúcido de um Black White e num arroubo retórico de uma oratória meio patética, meio desesperada, chamei-a carinhosamente de “pocilga iluminada”.

Pois bem, essa pocilga, ou melhor, essa barraca, essa banca de revista, quase uma loja de conveniência, como que emula, sem nenhum propósito pecuniário, com a respeitável instituição clínica, “O Equilíbrio do Ser”, localizada mais adiante, praticamente na mesma avenida. Emula, e, no meu entender, está mais próxima da verdade, muito embora a “Boa Sorte” não tenha, em seus objetivos, que tangenciar qualquer certeza existencial, psíquica, orgânica, clínica ou transcendental. Se há fatores cognitivos pulsando em suas artérias, é porque viver é conhecer, conhecer sobretudo nossas imperfeições e lacunas, nossos vazios incomensuráveis e nossas esperanças decepadas .

A alcunha com que Farias a caracterizou – é hora de enunciar – se deve à idiossincrasia, melhor dizendo, à loucura particular que modula os hábitos dos mais assíduos frequentadores. O próprio Farias se reconhece como espécie típica desses loucos mansos que se sentam à mesa de bar, quase diariamente, para jogar conversa fora, falar da vida alheia, perder e vadiar no tempo, ao sabor de uma, duas, três, dez doses, não importa. O que importa, no fundo, é não ter vergonha de si mesmo, de suas fragilidades corriqueiras e da dor anônima que banha todos os dias suas respectivas almas.

Um perdeu a saúde, outro perdeu a família, aquele não consegue saldar suas dívidas, aqueloutro não dá jeito em seu alcoolismo. Fulano cultiva o dissabor de ser um artista frustrado; beltrano é tipicamente bipolar e sicrano não esconde seus transtornos obsessivos compulsivos. Enfim, tem louco de todo gênero, porém, todos, plenamente humanos em seus desiquilíbrios.

A verdade é que somos seres esquisitos, informes, imprevisíveis, desamparados, desconhecidos uns dos outros, por mais que possamos permutar o pequenino pasmo de nossa precária condição humana. Diferente da persona do “Poema em linha reta”, de Álvaro de Campos, estes meus amigos só têm levado porrada e nenhum deles se diz campeão em qualquer coisa. No entanto, são gente de carne e osso, anti-heróis das inadiáveis rotinas, que me dizem e me ensinam tantas coisas. Por isto, cá comigo, suspeito que não existe o equilíbrio do ser.

HBF

Ler poemas

Não, não tenho dúvida: é a voz de Drummond, lendo seu poema, “Memória”, em meio a uma dessas canções populares que toca no rádio. E como me soam estranhos seus versos, principalmente os finais: “Mas as coisas findas/ muito mais que lindas, essas ficarão”.

Sua voz rouca, raquítica, cansada, quase inaudível e sem ritmo, atropela a fluidez melódica do poema, prejudicando sua doce e simples musicalidade. Sinto que a força emotiva dos seus quatro tercetos, simétricos na cadência e profundos no conteúdo temático, vai por água abaixo na leitura do grande poeta. E ouvi-lo, mesmo com o sotaque estranho de sua estranha originalidade, não me fez bem.

Ora, mas isto acontece. Nem sempre os poetas sabem ler com a devida propriedade estética e emotiva a linha de seus versos. Manuel Bandeira, por exemplo, também não é melhor do que Drummond. Lêdo Ivo, que ouvi e vi lendo seus poemas na televisão, é simplesmente um fiasco. Lê apressado, engolindo palavras, saltando sílabas, comendo letras, com sua voz fanhosa e desagradável. Talvez, dessa estirpe dos poetas maiores, salve-se Vinícius de Moraes, certamente ajudado pelo talento musical e a voz ritmada.

Da grei mais próxima, destaco os pernambucanos Marcus Accioly, Ângelo Monteiro, José Mário Rodrigues e Esman Dias, que não só leem seus poemas com intensa expressividade, mas os dizem de cor, pontuando o ritmo interno de cada verso e respeitando a densidade semântica das ideias e das imagens.

Aqui, na Paraíba, somente José Antonio Assunção e Sérgio de Castro Pinto sabem ler, de fato, os seus poemas. O timbre de suas respectivas vozes e a sapiência rítmicas que modulam o exercício prazeroso da leitura, se não melhoram a materialidade poética de seus textos, adequam-se perfeitamente às suas exigências intrínsecas.

Ler seus próprios poemas, ou mesmo os poemas alheios, não é tão fácil como se pensa. Não é tarefa para qualquer um. Observando, em alguns recitais, a performance de alguns de meus pares, sinto-me como que envergonhado. Bons poemas ficam ruins; poemas razoáveis tornam-se piores. Se eles me envergonham, certos atores e certas atrizes, por outro lado, me entristecem, pois fazem de seus recitais uma cenografia tosca e bisonha que beira o ridículo e onde a futilidade das aparências destrói e aniquila a verdade essencial do poema.

Não sou contra a leitura em voz alta, porém, diante dessas experiências malogradas, prefiro a caixinha acústica da leitura silenciosa, em tudo antenada com a música íntima e orgânica que se cristaliza em cada pausa e em cada acentuação que os versos, em seus insólitos movimentos, se permitem. Nunca esqueço que a música do poema está dentro do poema; não vem de fora, e, não raro, vibra mais alto e mais afinada quando entregue às vozes secretas do silêncio.

HBF

O meu Roland Barthes

A revista Cult traz dossiê acerca de Roland Barthes, por ocasião do centenário de seu nascimento. Nada mais merecido. Barthes é um desses pensadores seminais, principalmente para aqueles que se interessam, em primeira mão, pelas letras e pelas artes, sem descurar, é óbvio, o interesse mais geral pelos caminhos e descaminhos dos atores humanos.

Jovem, estudante de letras, na UFPB, me vi às voltas com o ensaísta francês, através das aulas do professor Ivaldo Bittencourt, recém-chegado de Paris, orgulhoso do “Tré bien”, na viva voz do mestre, após defesa de tese na Sorbonne. Mas o Barthes que o saudoso professor me apresentou, no rigor técnico de sua terminologia estruturalista, no mais das vezes cifrada e esotérica, foi o Barthes semiólogo. Dizem, o primeiro Barthes, aquele cioso de um conhecimento científico do universo textual, em particular da prosa narrativa, investigada no âmbito de suas funções internas, catálises, actantes e outras categorias que impactavam a ignara cabeça do neófito em teoria literária.

Só mais tarde, depuradas as peripécias de um leitor confuso, em meio ao obscurantismo de doutrinas mal assimiladas que aportavam aqui como verdades novas e absolutas, foi que me aproximei, e desta feita, definitivamente, do Barthes que aprendi a amar, apesar das distorções impostas pela semioticice de certos mestres. Mestres que, aparentando um domínio acadêmico sobre os fechados procedimentos metodológicos, faziam falar as teorias, ao mesmo tempo em que silenciavam a voz aberta dos textos.

Falam, assim, de um segundo Barthes, um Barthes traquinas e rebelde perante à geometria dos conceitos e das classificações, extremamente livre no diálogo que estabelece, enquanto leitor, com os interstícios e as entrelinhas do texto, na busca intensa e lúdica do plural de sentidos que circula em suas malhas e que gira, ad infinitum, na esfera distendida da significação, ou melhor, da significância e da escritura.

É o Barthes de “O prazer do texto”, dos “Fragmentos de um discurso amoroso”, de “A câmera clara”, de “Roland Barthes por Roland Barthes” e, sobretudo, de “Aula”. Este, por sua vez, espécie de súmula de seu pensamento estético e de sua concepção mais fecunda acerca da linguagem e do saber.

É este o Barthes que amo e que me surpreende na aventura renovada de cada releitura. Um Barthes que mistura a límpida lógica de uma razão sensível, intelectiva e criativa ao mesmo tempo, com os pedidos secretos do corpo, e que, como um poeta da crítica, desvela clareiras invisíveis e instigantes no arquivo das palavras, conclamando o pulsar das vozes do outro.

Este é o Barthes estético, portanto, ético. O Barthes pedagógico por excelência. O Barthes da maternagem, socrático, cético. Aquele que não concebe a aprendizagem sem prazer, a leitura sem a fruição. Aquele que vai além do ensino e que ultrapassa as fronteiras da pesquisa, para se entregar, inteiro e livre, à aprendizagem do desaprender. Enfim, o que, ao conhecimento prefere a sapiência, ou, como ele mesmo afirma, no final de sua célebre aula no Colégio de França: “(…) nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de sabor possível”.

HBF

Desejo e velhice

O desejo não morre, e os velhos estão vivos! Vivos, com todos os seus desejos.

Antes de entrar no assunto, deixe-me dizer-lhe, caríssimo leitor, que o amor é algo tão delicado, tão indisciplinado, tão comovente, tão surpreendente, tão miraculoso, que aparece assim do nada e se entrega, elástico e humilde, fluido e poderoso, ao credo das coisas e à carência das criaturas. Natural, mas também simbólico, corta todas as fronteiras, abolindo as diferenças de classe, de língua, de gênero, de idade, de cor, de poder e de saber, captando, assim, o liame secreto que pode unir um ao outro, isto e aquilo.

Monogâmico, poligâmico, andrógino, hermafrodita, homossexual, bissexual, transsexual, efêmero ou duradouro, livre ou convencional, feliz ou infeliz, amor é amor, e, em sendo amor, busca a comunhão, o compartilhamento e a doação do desejo que o move por dentro e o transforma numa das práticas humanas mais éticas. Precisamente a prática da hospitalidade do outro. Amar, portanto, é dividir minha casa, meu coração, com o outro enquanto possível e renovável objeto de meu desejo. E afirmo, desde já: O desejo não é apenas coisa do corpo; é sobretudo um pedido da alma.

Que o homem ame o homem, que a mulher ame a mulher, que a mulher ame o homem e o homem ame a mulher, sem constrangimentos morais, políticos ou religiosos; sem amarras ideológicas e sem preconceitos, sem cálculos nem utilitarismo, eis o que importa na cerimônia dessa experiência que é direito e condição de todos.

Com o amor, o ser humano se desnatura e pode e deve refinar o império do desejo, canalizando o elemento de sua vontade, portanto de sua liberdade e responsabilidade, para o outro, num movimento que o timbra cada vez mais como ser humano, como ser que ama, ser amorável e amoroso…

Não vejo de outra forma “Estela” (Nathalia Timberg) e “Tereza” (Fernanda Montenegro), personagens que constituem um casal lésbico na novela “Babilônia”, mesmo considerando os estereótipos e os preconceitos com que a cultura de massa costuma tratar temas como estes. O que vejo ali é uma relação de amor, normal como qualquer relação de amor, e a saudável possibilidade de outro paradigma familiar.

Hipocrisias à parte, esses amores sempre existiram e atendem à pluralidade erótica da natureza humana. Como nos ensina a sabedoria popular: São coisas da vida. Não é, portanto a TV que pauta a vida, mas a vida que pauta a TV. A propósito, a vida pauta tudo!

De uma maneira ou de outra, o que tem incomodado muita gente, mexendo com suas rígidas estruturas morais, não é simplesmente a relação de amor entre duas mulheres, porém o fato de estas duas mulheres serem velhas, como se o amor e o desejo que o move não fosse permitido aos que ultrapassaram a casa dos 60. Mas, amor não tem idade, e insisto: O desejo não morre; o desejo não é apenas coisa do corpo, é também coisa da alma. E, como diria o poeta, amar é nosso destino; “(…) Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa/amar a coisa implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”.

HBF

 

A mais forte impressão!

Tia Dona enviuvou logo cedo. Nem contava trinta anos nem tivera filhos. Desde então, nunca mais saiu de casa; sequer se achegava à janela para espiar o sossego da rua. Do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para o quintal, eis o itinerário que percorria no ramerrão do silêncio e da solidão a que se decidira entregar “de corpo e alma, completamente”. O único refrigério do espírito – tudo me leva a crer ainda hoje – consistia num meticuloso cultivo de romãs, a transformar o pequenino terreno baldio do quintal num pomar uniforme, impregnado do agreste perfume daquelas frutas sagradas. Sim, também se alimentava com a leitura diária de uma velha Bíblia, curioso espólio de seus antepassados, e em cujas páginas como que inscrevia a trama secreta daquele mistério. Viveu assim até os setenta anos, na companhia de si mesma, indiferente aos chamados do mundo, invisível e encantada, não sei se na paz do Senhor ou se na guerra inevitável da vida e dos homens.

Biu Marcolino dividiu comigo a carteira do grupo escolar Major José Barbosa. Nem mal concluíra o primário, largou os estudos para cumprir o destino de criador de gado, à semelhança do pai, do avô e do bisavô, matutos arrimados no gosto da labuta do curral, no cheiro inesquecível do esterco e na cerimônia matinal da ordenha das vacas de leite. Desde menino até hoje, num ritmo que se repete em estranha monotonia, Biu Marcolino, já passando dos sessenta, acorda todos os dias, de domingo a domingo, às quatro da matina, e sai para uma terrinha que possui, voltando sempre à boca da noite, num cavalo bom e baixeiro. Seu mundo são as suas vacas, suas vacas são as suas estrelas. Nunca viajou, não conhece cidades, não anda de carro, não tem celular, não fuma, não bebe, não faz outra coisa a não ser cuidar de suas vacas. Amar e amar as suas vacas como se ama as criaturas que existem fora do tempo e numa esfera que é mais do sonho e da fantasia do que da bruta e inóspita realidade.

Meu avô Miné tinha os olhos claros e as mãos calejadas. Viveu quase cem anos e sem o desconforto das doenças do mundo. Sua morte se deu por falência múltipla dos órgãos, sem alardes, sem prantos e sem lamúrias. Gastou toda sua longa vida no trato da terra, no cabo da enxada, preparando os roçados de milho e feijão para as bênçãos aquáticas dos magros invernos de meu Cariri. Falava pouco, não se alterava com nada e só se interessava pelos hectares de terra que possuía, como a única volúpia a que se dava o direito numa vida medida e regrada entre a casa e o trabalho, e nada mais.

Zé da Maleta era o doido da cidade. Segundo os mais velhos, viera dos lados de Pernambuco, abandonado que fora pelos caprichos de mulher bonita e leviana. Nem a música, que cultivara com gosto e refinamento, evitou a tragédia da loucura. Careca, baixinho, musculoso, ganhava a vida carregando sacos de cereais pelas ruas do comércio. Cara fechada, não se relacionava com ninguém. Às vezes, pelos becos e esquinas, ouviam-se seus grunhidos sombrios, seus monólogos soturnos, seus lamentos assustadores. Insultado, sobretudo pela meninada, (“Corninho da calça curta!”), ficava agressivo e vociferava os palavrões mais cabeludos… Não estive no seu enterro, mas todos me asseguraram que foi o maior de toda a história da velha Comarca.

Estas criaturas e estas lembranças não passam. “O tempo desapiedado”, que a tudo rói e arruína, jamais apagará de minha memória. Não são páginas dos livros que amo, mas, como as melhores páginas dos livros que amo, ainda hoje me causam a mais forte impressão.

 HBF

Encontros!

Partindo de José Mário da Silva, Gonzaga Rodrigues, no calor do olhar do cronista genuíno, evoca um de seus pares na cena da palavra literária. Nathanael Alves, o autor de “O pássaro e a bala”, também fino cronista, atento à tessitura mais leve das coisas e ao odor dos fatos miúdos que, na sua instância provisória, preserva a magia dos eventos que perduram no lampejo memorável de uma imagem.

Três nomes e duas gerações que se imbricam na atemporalidade dos requisitos estéticos e dos dispositivos humanos a que, cada um, em sua singular e absoluta entrega e doação, estabelece a planilha dos vocábulos para calcular o imponderável lírico que move o sentido da vida e dá sentido e vida à rotina e à aventura de todos os dias.

Não é dessa substância, tão tênue e quase imperceptível, ao mesmo tempo tão exata e tão flexível, tão sólida e tão esgarçada, tão rarefeita e tão encantatória, que se modula o barro da crônica? A crônica que, em sendo prosa, e prosa anônima e humilde sobre os artefatos daquilo que se põe ao rés do chão, também se transmuta em poesia e se arquiteta numa estrutura inteiriça e consistente que vale o milagre de um poema. Quer exemplos, leitor? Vá, ao acaso, às páginas de um Rubem Braga, de um Marques Rebelo, de um Joel Silveira, de um Carlos Drummond de Andrade, de um Ledo Ivo, de um Fernando Sabino, de um Paulo Mendes Campos, de um Nathanael Alves e de um Gonzaga Rodrigues.

De Nathan – repito – “O pássaro e a bala”. Tanto a crônica em si quanto a coletânea de tantas peças que podem ilustrar meu pensamento. De Gonzaga, “Notas do meu lugar”, “Um sítio que anda comigo”, “Filipeia e outras saudades” e “Café Alvear: ponto de encontro perdido” podem demonstrar a pertinência de minha fala. Atendem decerto aos crivos exegéticos da luneta crítica de José Mário da Silva, debruçado sobre o corpus de nosso cronicário com os instrumentos essenciais da competência analítica, da sensibilidade e da imaginação, sem os quais a leitura crítica atrofia e apodrece.

Zé Mário é da nova geração, formada nos bancos acadêmicos, porém, espécie rara que fareja o tutano qualitativo da ceia literária, sem os suspensórios burocráticos das metodologias abstrusas e aberto, sobretudo, à possibilidade estilística dos que fazem a crônica local, resgatando valores, descortinando caminhos, enriquecendo a convivência estética e cultural.

É bom que estes catadores de palavras, estes rastreadores da música que acaricia a pele dos substantivos e o silêncio dos verbos; estes roedores das metáforas mais precisas e dos significados mais ocultos, vivam as núpcias desse encontro, e as vivam especialmente na esfera mágica das palavras.  Por quê?

Ora, porque esta é uma experiência única, alicerçada na dose certeira da generosidade humana e no humano fermento que só as autênticas afinidades eletivas podem promover. É desses encontros, e não dos suspensórios das vaidades vazias, que se faz uma literatura.

HBF